XXIV Domingo do Tempo Comum

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(Mc 8,27-35)
Jesus é o Cristo. E tu, o que és Dele?
Seguidor ou Satanás?

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum, geralmente chamado de “Confissão de Pedro”, representa no esquema teológico de Marcos um momento decisivo, pois estamos no coração deste escrito. O questionamento de Jesus em relação à percepção que o povo tem Dele e, em seguida, a resposta dos discípulos, cujo porta-voz é Pedro, encerram a primeira parte do livro (Mc 1,14–8,29). Sem dúvida, Jesus é o Messias, o Ungido de Deus, aquele que fora anunciado pelos profetas e esperado pelo povo. Contudo, não basta afirmar a sua messianidade, pois esta ainda não é a grande novidade da Sua Pessoa. É preciso, porém, deixar claro em que sentido Jesus é o Messias. Marcos já havia antecipado a resposta: “Princípio do evangelho de Jesus, o Messias, o FILHO DE DEUS” (1,1).

Eis a grande novidade, que representou para muitos um verdadeiro escândalo e causa de acusações para condená-lo à morte: “O Sumo Sacerdote o interrogou de novo: ‘És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?’, Jesus respondeu: ‘Eu Sou…’ O Sumo Sacerdote, rasgando as vestes, disse: ‘Ouvistes a blasfêmia?’ E todos julgaram-no réu de morte” (Mc 14,61s). Jesus não foi condenado à morte por ter sido identificado como um messias, pois no seu tempo havia alguns outros que se tinham proclamado assim e nem por isso sofreram a pena capital. Para nós, Messias e Filho de Deus têm o mesmo significado, mas para os primeiros ouvintes deste anúncio isto criava no mínimo uma confusão e um choque com a mentalidade monoteísta vétero-testamentária. Pois nunca se tinha dito algo assim tão ousado. Por conseguinte, o Messias Jesus provocou os seus discípulos a fim de que dessem um passo qualitativo na sua decisão de segui-lo. Não bastava apenas seguir um messias, pois poderia acontecer mais uma vez um engano, até porque cada grupo religioso tinha a sua concepção de messias (Guerreiro para os zelotas; Legislador para os fariseus; Profeta ascético para os seguidores do Batista, etc.). Jesus, por sua vez, não se identifica com nenhum desses e, pelo contrário, rompe com todas essas expectativas. Esta verdade é comprovada pelo fato de ter Ele morrido abandonado por quase todos, sobretudo por aqueles que, aos poucos, foram se decepcionando diante de suas palavras e ações, pois contradiziam as várias expectativas messiânicas do tempo.

Por isso, identificá-lo com “João Batista, Elias ou ainda, um dos profetas” não era nenhuma novidade em relação a Jesus. Até o próprio Herodes apostava em uma dessas alternativas: “O rei Herodes ouviu falar de Jesus… e dizia-se que João Batista fora ressuscitado… Já outros diziam que era Elias… Outros que era um dos profetas. Herodes, ouvindo estas coisas, disse: ‘João, que eu mandei decapitar, foi ressuscitado” (Mc 6,14s). Até então, nenhuma novidade. Tudo o que se dizia estava dentro das possibilidades. Pedro ao responder que Jesus é o Messias também corrobora com essas expectativas. Contudo, essa resposta é insuficiente!!! Então, Jesus inicia uma nova etapa no processo de revelação de quem Ele é verdadeiramente, pois afirmar que é messias não basta. A primeira providência é proibir que digam isso por aí: “Proibiu-os severamente de falar a seu respeito”. Os discípulos ainda não estavam em condições de fazer esse anúncio, pois o distintivo essencial de Jesus, em relação aos outros messias e suas respectivas expectativas, iria ser consolidado pelo seu testemunho extremo morrendo na cruz, consequência de ter afirmado, Ele mesmo, ser Filho de Deus. Sem a cruz, é impossível dizer que Messias Jesus é.

Portanto, é o próprio Jesus que antecipa essa confirmação através de três anúncios daquilo que está para acontecer em Jerusalém: Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31-32; 9,30-31;10,32-34).
A reação de Pedro confirma que, de fato, a sua resposta era insuficiente. Ouvir que Jesus iria sofrer, morrer e ressuscitar era algo totalmente inaceitável para o tal messias esperado, pois este deveria ser vitorioso e instaurar o seu reino com força e poder. Marcos diz que Pedro, ao ouvir esse anúncio, repreendeu Jesus empurrando-o para fora do caminho. Aparente solicitude de ardente zelo pelo seu Mestre-Senhor-Cristo, mas na verdade, uma astúcia perigosa e ameaçadora que punha em risco tudo aquilo que, em Jesus, era o distintivo dos outros pretensos messias, cuja mentalidade era mundana e aproveitadora diante da ignorância e ansiedade do povo (“Pensas como os homens”).

Dramaticamente, agora revela-se a identidade daquele que foi chamado para ser discípulo: “Satanás!” Chamando-o assim, Jesus não está realizando uma sessão de exorcismo em Pedro, como se ele tivesse sido tomado por um espírito imundo que lhe fazia dizer coisas de modo inconsciente. Não foi exorcismo, mas brado de conversão: “Vai para trás de mim!!!” É comum entendermos essas palavras de Jesus como se fossem uma ordem para Pedro ir para longe Dele, mas a construção sintática grega permite uma outra possibilidade de tradução, que no contexto literário imediato se justifica. Literalmente a ordem de Jesus é: “Vai para trás de mim” (grego: opiso mou), pois logo em seguida, no versículo 34, encontramos a mesma expressão no convite dirigido a todos que desejarem ser discípulos: “Se alguém quiser vir após mim” (opiso mou).

No caminho do discípulo, responder: “Quem é Jesus?” é algo imprescindível para prosseguir, e só daremos a resposta completa, suficiente, se tivermos a convicção e clareza daquilo que nós somos Dele. Seremos um Satanás, um adversário, se nos colocarmos na frente Dele, impondo-lhe o que gostaríamos que Ele fosse segundo as nossas comodidades, evitando a cruz. Assim fez Pedro, quando quis tirar Jesus do caminho do Messias sofredor, tentando afastá-lo da cruz, verdadeira prova de que Ele era o Filho de Deus (Mc 15,39). Mas Jesus não desistiu do seu discípulo, renovou-lhe o convite original: “Segue-me” (1,17), pois é a condição para ir para trás Dele, isto é, converter-se em discípulo, seguidor. Cabe a nós, também, verificar onde estamos no caminho: se à frente ou atrás!!!